International Ophthalmology · 2024
Epidemiologia do ceratocone pediátrico: revisão sistemática de escopo
Revisão sistemática de escopo (PRISMA-ScR) mapeando toda a evidência epidemiológica disponível sobre ceratocone em crianças. Mostra que a prevalência real do ceratocone pediátrico é muito maior do que estimativas históricas sugeriam — um achado com consequências diretas para rastreamento escolar e critérios de elegibilidade ao tratamento.
Contexto
A estimativa clássica de prevalência do ceratocone — cerca de 1 em cada 2.000 pessoas — vem de estudos da década de 1980, feitos antes da adoção generalizada de topografia corneana e tomografia (Pentacam, Galilei). Estudos recentes, usando ferramentas de triagem mais sensíveis, têm encontrado números muito maiores. Em crianças, a distribuição etária do diagnóstico é relevante porque a doença progride mais rápido na infância e na adolescência do que na idade adulta — o que torna a detecção precoce especialmente crítica.
Método
Revisão sistemática de escopo seguindo a diretriz PRISMA-ScR, com protocolo pré-registrado no OSF. Bases consultadas: PubMed e Cochrane, cobrindo 1998 a 2019, com oito combinações de termos MeSH. De 1.802 registros identificados, 76 a 94 artigos foram incluídos em diferentes estágios da triagem. Extração em duplicata com resolução de discordâncias.
Achados
- A prevalência do ceratocone pediátrico varia dramaticamente entre regiões e critérios diagnósticos — até 4,9% em algumas populações, muito acima da estimativa histórica de 1:2.000.
- Fatores de risco consistentemente reportados: síndrome de Down, hábito de coçar os olhos, doenças atópicas (rinite, dermatite atópica, asma).
- A progressão é mais rápida em crianças do que em adultos, reforçando a importância do diagnóstico precoce para indicar crosslinking antes da perda visual estrutural.
Implicações clínicas
A revisão oferece base para expandir critérios de rastreamento em crianças com fatores de risco (Down, atopia, história familiar), justificar a indicação mais precoce do CXL em pacientes pediátricos e informar políticas públicas de saúde ocular escolar. Também identifica lacunas — em especial, a escassez de estudos brasileiros e latino-americanos — apontando prioridades para pesquisa futura.