Arq. Bras. Endocrinol. Metab. · 2014
Viés de memória na obtenção da idade da menarca por método recordatório
Estudo metodológico comparando duas formas de se obter a idade da menarca em adolescentes brasileiras — o método recordatório (perguntar à menina depois do evento) e o método status quo (análise estatística por logit). Mostra que o recordatório é confiável apenas nos primeiros anos após a menarca; depois disso, as meninas passam a subestimar sistematicamente a própria idade do evento.
Contexto
A idade da menarca é um marcador importante em estudos de crescimento, nutrição e saúde pública. Estudos populacionais tradicionalmente usam o método recordatório por praticidade: a menina responde "com que idade você menstruou pela primeira vez?". A alternativa metodológica — status quo — pergunta apenas se a menina já menstruou (sim/não) e usa análise logit para estimar a idade mediana da menarca na população. Qual dos dois métodos é mais acurado, e sob quais condições, é uma questão prática relevante.
Método
Estudo transversal com 1.671 meninas de 7 a 18 anos, frequentando escolas públicas e privadas de Campinas (SP) entre 2010 e 2012. Aplicaram-se simultaneamente os dois métodos a cada participante; comparou-se a idade recordada com a idade mediana estimada pelo logit, estratificando por tempo decorrido desde a menarca.
Achados
- Idade mediana da menarca calculada pelo logit: 12,14 anos.
- Meninas dentro dos três primeiros anos após a menarca recordam com precisão — idade recordada (12,26 a) muito próxima da estimada pelo logit.
- Além desses três anos, o viés de memória se instala: meninas mais velhas subestimam sistematicamente a própria idade da menarca (recordada 11,55 a vs. logit 12,14 a; p < 0,001).
Implicações
Para pesquisadores que planejam estudos envolvendo idade da menarca, o artigo oferece um critério prático: se a janela de tempo desde o evento for curta, o método recordatório é suficiente; para coortes mais velhas, o status quo produz estimativas menos enviesadas. O trabalho foi produzido como iniciação científica da graduação, com financiamento FAPIC/PUC-Campinas, e usou o mesmo banco de dados do estudo paralelo sobre prevalência de excesso de peso em escolares.